Prelúdio 2
Um ato que não está à venda: com o que o analista paga?
O analisante paga, o analista cobra. No entanto, Lacan introduz uma terceira operação: o analista também paga.
Em A direção do tratamento esse pagamento não se reduz ao dinheiro. O analista paga com suas palavras, quando estas alcançam valor de interpretação; paga com sua pessoa, que se oferece como suporte à transferência; e paga com aquilo que há de essencial em seu julgamento mais íntimo[1]. Não deixa de ser notável que, ao interrogar a direção do tratamento, Lacan desloca tão rapidamente a questão do pagamento para o lado do analista.
Ora, o fato de o dinheiro não esgotar a questão do pagamento não significa que ele seja indiferente. Ali, onde entra na transferência, ele pode introduzir uma medida diante de dívidas que, de outra forma, ficariam abertas ao amor, à gratidão, à culpa ou ao sacrifício. Cichello parte de uma premissa provocativa: “não há gratuidade, sempre se paga com algo”[2]. Mesmo onde não circula dinheiro, a função do pagamento opera por outras vias na direção do tratamento.
A questão adquire outra dimensão no seminário A ética da psicanálise. Na análise, acessar o desejo implica pagar um preço; Lacan situa esse pagamento do lado do gozo: “essa operação mística eu pago com uma libra de carne”[3]. Se o acesso ao desejo não ocorre sem perda, o que se paga, então, em uma análise? Quem paga e com o quê?
Do lado do analista, a questão do pagamento retorna sob outra forma: o que lhe retorna daquilo que seu ato produz? Colette Soler lembra que “o ato analítico é o único ato [...] cujo benefício não vai para o agente do ato [...] no final, nada lhe retorna do benefício do ato”[4]. De tal forma que o ato analítico teria a particularidade de não garantir ao seu agente um ganho equivalente ao que produz.
O que significa hoje pagar para sustentar o ato analítico? Todd McGowan aponta que a forma-mercadoria[5] (Warenform) promete um excesso sem perda, um “mais” que poderia ser obtido deixando para trás a falta[6]. Não deixa de ressoar aqui uma lógica de ganho total, sem limite, sem resto. O que acontece quando o próprio tratamento é capturado por essa promessa e passa a ser medido em termos de eficácia, rendimento ou adaptação? McGowan retoma, além disso, uma crítica que não descarta totalmente: que a psicanálise pode chegar a funcionar como auxiliar ideológico do capitalismo quando sua prática favorece a docilidade dos analisantes[7]. Assim, o problema não seria apenas que o tratamento se torne mercadoria, mas que o próprio ato acabe servindo a essa lógica.
Com o que o analista paga, então, para não transformar a transferência em uma dívida, a cura em uma mercadoria ou seu saber em uma garantia?
Talvez um dos desafios atuais da direção do tratamento esteja justamente aí: em poder cobrar sem reduzir a análise a uma troca e em poder pagar, com sua posição, um ato cujo efeito ele não garante e cujo benefício não lhe pertence.
Jorge Ramírez Richmond
Fórum do Campo Lacaniano do México
San José, Costa Rica, 20 de setembro de 2026
______________________________
Notas
[1] Lacan, J. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 591-652.
[2] Cichello, G. (2010). A função do dinheiro na psicanálise. Buenos Aires: Letra Viva, p. 93.
[3] Lacan, J. (1959-60). Os paradoxos da ética ou você agiu de acordo com seu desejo? In: Seminário 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, p. 386.
[4] Soler, C. (2004). “O que se espera da análise e do psicanalista?” Em O que se espera da psicanálise e do psicanalista? Buenos Aires: Letra Viva, p. 233.
[5] Forma-mercadoria (Warenform): conceito com o qual Marx designa a forma social específica que os produtos do trabalho assumem quando são produzidos para a troca. Nessa forma, os produtos possuem simultaneamente valor de uso e valor, e as relações sociais entre aqueles que os produzem se apresentam como relações entre coisas intercambiáveis. Por isso, a mercadoria não é simplesmente um objeto que se compra e se vende, mas a forma elementar da riqueza no modo de produção capitalista e a expressão de determinadas relações sociais de produção (Livro I, capítulo 1, seção 4 de O Capital)
[6] McGowan, T. (2025). Pure Excess: Capitalism and the Commodity. Nova York: Columbia University Press, “Introdução”, p. 3.
[7] McGowan, T. (2016). Capitalism and Desire: The Psychic Cost of Free Markets. Nova York: Columbia University Press, “Introdução”, pp. 1-2.

Prelúdio 1
Do que depende o porvir da psicanálise?
“A psicanálise não triunfará, ela sobreviverá ou não”[1]
Lacan se perguntou por que alguém, após constatar a que o analista é reduzido no final de uma análise, ainda assim escolhe a “aberração” de ocupar esse lugar para um outro.[2] A resposta precisa ser encontrada em cada caso, mas podemos arriscar um ponto em comum: o desejo de que a psicanálise, tal como se a experimentou, sobreviva para as gerações que virão.
Diferentemente dos outros discursos, o discurso do analista não se sustenta dos avanços da civilização que, no mais das vezes, estão a serviço de um não querer saber nada sobre a falta estrutural do ser falante. Vivemos na era prevista por Lacan em que o casamento da tecnociência com o discurso capitalista produz o cúmulo da segregação, acompanhada da foraclusão das coisas do amor e do desejo em prol da promessa de erradicação da falta.
Que espaço há em meio a isso para um discurso que convoca cada um a assumir sua responsabilidade diante do furo? Num mercado onde se vende todo tipo de promessa de completude, o que poderia o psicanalista, aquele que só tem a oferecer a falta?
Lacan deixa uma pista: “tudo depende de que o real insista” .[3] Mas não será preciso ainda que, quando o programa falhar, alguém circule no mercado para sustentar a oferta de outra saída possível? “Uma análise é o que se espera de um psicanalista”, [4] ele diz. Ou seja, é preciso que haja psicanalista para sustentar uma análise, mas também é preciso análise para que haja analistas.
Assim, àquele que se dispõe a ocupar esse lugar, é necessário estar comprometido com a própria análise até o ponto em que possa advir um desejo que não ceda aos apelos das ideologias e que permita outro modo de satisfação. Mas também é preciso, como afirma Nguyên[5], resistir — não como um muro frente a uma inundação —, mas no sentido de retomar os fundamentos da direção da análise, afirmando sua extraterritorialidade em meio aos outros saberes.
É o movimento que o próprio Lacan faz em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”,[6] apresentando questões que eram as da sua época e que os convido a atualizar: quais os desvios aos quais a psicanálise está submetida hoje? Em que ponto estamos com a hipótese lacaniana do trauma e da repetição? Entendemo-los como consequência de um Outro que goza e submete, ou a partir dos efeitos da subordinação do sujeito a um significante? Quem analisa hoje? Aquele que interpreta a partir de uma leitura social do sintoma, ou aquele que interpreta tirando proveito da transferência? E quanto ao lugar do analista no tratamento? Sustentamos o lugar de falta-a-ser que Lacan lhe reserva ou caímos nas armadilhas de fazer uso do poder que a transferência nos concede?
É diante desse cenário que o tema do nosso VII Simpósio Interamericano da IF-EPFCL - “Desafios atuais da direção do tratamento” - assume sua relevância. Ele é um verdadeiro chamado a retomarmos os fundamentos de nossa prática se quisermos estar à altura de sustentar o discurso analítico na babel da subjetividade da nossa época.
E então, nos vemos em Fortaleza para fazer avançar essas perguntas?
Lia Silveira
psicanalista, AME da EPFCL, membro do FCL - Fortaleza
[1] LACAN, J. A Terceira, 7o Congresso da Ecole Freudienne de Paris, 1974
[2] LACAN, J. O Saber do Psicanalista, lição de 01 de junho de 1972
[3] LACAN, J. A Terceira, op.cit.
[4] LACAN, J. O Seminário, livro 17 - O avesso da psicanálise, aula de 14 de janeiro de 1970.
[5] NGUYÊN, A. En attendant Lacan... Paris: Éditions Stilus, 2025.
[6] LACAN, Jacques (1958) “Direção do tratamento e os princípios do seu poder” In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

